Explicação do zero — 2026

Furusato Nozei

O que é Furusato Nozei?

Você escolhe uma cidade do Japão, recebe presentes e reduz os impostos que já pagaria. Doando dentro do seu limite, o custo real é de apenas ¥2.000 no ano inteiro. Esta página explica o sistema por dentro: o que ele é, o que ele não é, e para onde o seu dinheiro realmente vai.

Dados oficiais de julho de 2026 Sem jargão fiscal Sem cadastro
Caixa com carne, arroz, frutas e frutos do mar, presentes típicos do Furusato Nozei
Seu custo
¥2.000
por ano*

Resposta rápida

Furusato Nozei é uma forma de direcionar parte do imposto que você já pagaria para uma cidade japonesa. Você faz a doação, escolhe um presente e recebe quase todo o valor de volta como desconto no imposto do ano seguinte.

O único custo fixo é ¥2.000, desde que a doação não ultrapasse o seu limite.

Esta página explica o que o sistema é. Se você já entendeu e quer fazer, o guia completo do Furusato Nozei tem a calculadora de limite e o passo a passo.

Você não gasta dinheiro novo. Você redireciona um imposto que já ia sair do seu bolso — e ganha um presente por isso.

Essa é a ideia inteira. Todo o resto — limite, One-Stop, prazos — é burocracia em volta dessa frase.

O nome engana, e vale saber por quê

“Furusato nozei” é a junção de duas palavras japonesas. Traduzido ao pé da letra, o nome promete uma coisa que o sistema não faz — e é daí que nasce boa parte da confusão.

FURUSATO

Terra natal, a cidade onde você nasceu ou cresceu. Apesar do nome, você não precisa ter nenhuma ligação com a cidade escolhida. Pode doar para qualquer município do Japão, sem nunca ter pisado lá.

NŌZEI

Pagamento de imposto. Mas juridicamente não é imposto: é uma doação (寄附金). Você paga primeiro do próprio bolso, e só depois o valor volta como abatimento — o campo se chama 寄附金税額控除, “dedução por doação”.

Guardar isso resolve dois mal-entendidos de uma vez: você pode escolher qualquer cidade, e o dinheiro sai antes de voltar. Não existe “pagar imposto para outra cidade” — existe doar agora e descontar depois.

O caminho do seu dinheiro

Acompanhe uma doação de ¥10.000, do seu cartão até o seu holerite do ano seguinte.

1. Você doa

Escolhe uma cidade e paga com cartão, como numa compra online.

−¥10.000

2. A cidade recebe

O município usa o dinheiro no orçamento dele — escola, saúde, obras.

+¥10.000

3. O presente chega

Semanas depois, a cidade envia um produto da região para a sua casa. Por lei, ele vale no máximo 30% do que você doou.

até ¥3.000 em produto

4. O imposto cai

A partir de junho do ano seguinte, o seu imposto residencial vem menor, mês a mês, até completar o valor.

+¥8.000

No fim da história você gastou ¥2.000 e ficou com um produto que valeria até ¥3.000 no mercado.
O imposto que “voltou” não é lucro — é a devolução do que você adiantou. O seu ganho é o presente.

Exemplo com uma doação de ¥10.000 feita dentro do limite pessoal e com o procedimento fiscal concluído. Os ¥2.000 são fixos por ano, não por doação: quem doa ¥10.000 e quem doa ¥50.000 dentro do limite paga os mesmos ¥2.000 no ano inteiro.

Uma doação de ¥10.000, mês a mês

A parte que mais confunde iniciante é o tempo: entre pagar e ver o desconto passam mais de seis meses. Veja o calendário de quem doa em novembro de 2026.

  1. Novembro de 2026

    Você doa e paga

    Os ¥10.000 saem da sua conta agora. Na hora de fechar o pedido, você marca a opção do One-Stop para não precisar declarar imposto depois.

  2. Dezembro de 2026 a janeiro de 2027

    O presente e o formulário chegam

    Vêm separados e em ordens diferentes — às vezes o presente primeiro, às vezes o papel. Receber o presente não significa que a parte fiscal está resolvida.

  3. Até 10 de janeiro de 2027

    O formulário precisa chegar na prefeitura

    Este é o único prazo que realmente derruba gente. Se o papel não chegar a tempo, o desconto não acontece sozinho — só declarando imposto até março.

  4. Maio a junho de 2027

    Chega o aviso do imposto residencial

    É o documento onde dá para conferir se o desconto entrou. O campo a procurar é 寄附金税額控除.

  5. Junho de 2027 a maio de 2028

    O desconto aparece diluído no holerite

    Não cai dinheiro na conta: o imposto descontado todo mês vem menor, até somar os ¥8.000 ao longo do ano fiscal.

Repare que a doação de novembro de 2026 só termina de fazer efeito em 2028. Quem pretende sair do Japão nesse meio-tempo precisa de cuidado redobrado — o imposto residencial do ano seguinte só é cobrado de quem está registrado no país em 1º de janeiro, e sem imposto não há o que descontar.

Para onde vai, de verdade, o dinheiro que você doa

Essa parte quase nunca aparece em português. O governo japonês publica todo ano quanto das doações sobra de fato para as cidades, depois de descontar presente, frete, taxa de portal e administração. Nos números mais recentes, referentes ao ano fiscal de 2025, pouco mais da metade chega ao município.

Cada ¥10.000 doadosFica com%
Sobra para a cidade usar¥5.21052,1%
Custo do presente¥2.65026,5%
Administração da prefeitura e taxa do portal¥1.36013,6%
Frete, divulgação e taxa de pagamento¥7907,9%
Total doado¥10.000100%

Percentuais nacionais do ano fiscal de 2025, publicados pelo Ministério de Assuntos Internos e Comunicações em 31 de julho de 2026. Valores em ienes calculados por nós a partir desses percentuais e arredondados — a soma das parcelas arredondadas pode não fechar exatamente em ¥10.000. A proporção varia de cidade para cidade.

Existe um teto legal para tudo isso

O presente não pode passar de 30% do valor doado — é regra da lei de impostos locais. E o custo total de captação (presente + frete + divulgação + portal + administração) não pode passar de 50%. Em 2025 o custo total ficou em 47,9% na média nacional, ou seja, perto do teto.

A partir de 2026 a regra aperta: o governo passou a exigir que uma parcela mínima do dinheiro sobre para o município, subindo em etapas — 52,5% em 2026, 55% em 2027, 57,5% em 2028 e 60% a partir de 2029. Na prática, a tendência é o presente encolher um pouco em relação ao valor doado nos próximos anos.

Vale registrar também que 97,2% das doações passam por um site intermediário (Rakuten, Amazon, Furusato Choice e afins). Esses portais receberam ¥149,0 bilhões em 2025 só de taxas e serviços, sem contar presente e frete — o equivalente a 11,5% de tudo que foi doado no país. É um negócio grande, e é bom saber disso antes de tratar o sistema como caridade pura.

O que o Furusato Nozei não é

Descartar o que ele não é costuma explicar mais rápido do que descrever o que ele é.

Não é dinheiro de graça

Você não fica mais rico. Paga o mesmo imposto de sempre, mais ¥2.000, e recebe produto no lugar.

O ganho real é o presente, não o desconto.

Não é cashback

Não cai dinheiro na conta pelo One-Stop. O que acontece é o imposto do ano seguinte vir menor, diluído mês a mês.

É abatimento futuro, não estorno.

Não é isenção de imposto

Ninguém paga menos imposto no total. O valor apenas muda de destino: sai da cidade onde você mora e vai para a que você escolheu.

Mesmo imposto, endereço diferente.

Não é investimento

Não existe rendimento, nem risco de mercado, nem valor que cresce. O retorno é fixo e conhecido desde o começo.

É uma troca, não uma aplicação.

Não é doação pura

Só cerca de metade do que você doa sobra para a cidade. Se o seu objetivo é ajudar, doar sem escolher presente entrega bem mais.

Sem presente, quase tudo chega lá.

Não é só para japoneses

Não existe regra de nacionalidade. O que vale é pagar imposto residencial no Japão e ter renda tributável suficiente.

Brasileiro residente pode usar normalmente.

De onde veio esse sistema

O Furusato Nozei nasceu de um problema demográfico, não de uma ideia de marketing. Muita gente cresce no interior — estudando em escola pública paga com imposto local — e se muda para Tóquio ou Osaka ao começar a trabalhar. A partir daí paga imposto na cidade grande, e o município que a criou fica sem receita e sem população.

O Ministério de Assuntos Internos e Comunicações montou um grupo de trabalho sobre o assunto entre junho e outubro de 2007, e o sistema entrou em vigor em 2008, com a reforma da lei de impostos locais. A ideia era deixar a pessoa devolver parte do imposto para a região de origem, por escolha própria.

AnoO que aconteceuDoado no ano
2008O sistema entra em vigor¥8,1 bilhões
2015Criado o One-Stop, que dispensa a declaração de imposto — e o volume dispara¥165,3 bilhões
2019Regra do teto de 30% para o presente, e obrigação de ser produto da região¥487,5 bilhões
2024Passa de ¥1 trilhão pela primeira vez¥1,27 trilhão
2025Proibida a distribuição de pontos pelos portais (out/2025)¥1,33 trilhão

Valores por ano fiscal japonês (abril a março), do levantamento anual do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações. O ano de 2025 corresponde ao exercício encerrado em março de 2026.

Em números redondos: o sistema saiu de 54 mil doações no primeiro ano para quase 60 milhões em 2025 — o valor total multiplicou por cerca de 164 vezes. No imposto de 2026, 11,5 milhões de pessoas tiveram algum abatimento por Furusato Nozei, num total de ¥952,4 bilhões deduzidos.

Se você mora no Japão e ainda não usa, faz parte de uma minoria que encolhe todo ano.

Quem recebe e quem perde

Como o imposto muda de destino em vez de desaparecer, para cada cidade que ganha existe outra que deixa de arrecadar. Normalmente é a cidade onde você mora.

Mais receberam em 2025

  1. Izumisano, Osaka — ¥23,0 bi
  2. Shiranuka, Hokkaido — ¥22,3 bi
  3. Miyakonojō, Miyazaki — ¥21,6 bi

Cidades pequenas com produção agrícola ou pesqueira forte lideram a lista há anos.

Mais perderam no imposto de 2026

  1. Yokohama — −¥37,3 bi
  2. Nagoya — −¥21,5 bi
  3. Osaka — −¥20,7 bi

São grandes cidades onde mora muita gente que doa para fora. Se você vive numa delas, o seu desconto sai do orçamento da sua própria cidade.

Isso não é motivo para não usar — o sistema é oficial, legal e foi desenhado exatamente para isso acontecer. Mas é uma informação honesta que muda a forma de encarar a escolha da cidade. Vale saber também que 98,2% dos municípios deixam você escolher em que área o dinheiro será aplicado: a categoria mais escolhida em 2025 foi infância e criação de filhos, com ¥194,8 bilhões destinados.

Os mal-entendidos mais comuns de quem está começando

Não são erros de procedimento — são erros de entendimento, do tipo que faz a pessoa desistir ou se frustrar depois.

Então eu ganho o presente e o dinheiro de volta?

Você ganha o presente. O dinheiro que volta é o mesmo que saiu — é devolução, não prêmio. Somando tudo, você pagou ¥2.000 a mais no ano e ficou com produto na despensa.

Preciso doar para a cidade onde eu moro ou de onde eu vim.

Não. Pode ser qualquer município do Japão, sem nenhuma ligação com você. A única exceção é a sua própria cidade de residência: doar para ela não dá direito a presente.

Vou doar bastante porque volta tudo mesmo.

Volta até o seu limite pessoal, que depende da sua renda e das suas deduções. O que passar disso não volta — vira gasto puro. É por isso que a conta vem antes da escolha do presente.

Recebi o presente, então deu tudo certo.

Presente e desconto são dois processos separados. A cidade envia o produto assim que você doa, independentemente de você ter concluído a parte fiscal. Dá para receber o presente e não receber desconto nenhum.

Cheguei ao Japão este ano, já quero aproveitar.

Provavelmente ainda não compensa. O desconto abate o imposto residencial do ano seguinte, que é calculado sobre a renda deste ano. Quem chegou há pouco quase não tem imposto residencial para abater.

Quer a análise completa de quando compensa e quando não compensa, com cenários? Veja Furusato Nozei vale a pena?.

Perguntas de quem nunca fez

O que é Furusato Nozei, em uma frase?
É um sistema oficial do governo japonês que permite doar para o município que você quiser e abater quase todo o valor doado do seu imposto do ano seguinte, ficando com um presente da cidade e um custo fixo de ¥2.000 no ano.
Por que existe um custo de ¥2.000?
É a parcela mínima que a lei deixa fora da dedução — em japonês, 適用下限額. Ela existe para que a operação continue sendo juridicamente uma doação, com alguma contribuição própria de quem doa, e não uma simples transferência de imposto. O valor é por ano-calendário, não por doação.
Se todo mundo fizer, o Japão perde arrecadação?
O total arrecadado não muda: o imposto continua sendo pago, apenas por outro município. O que muda é a distribuição entre cidades — e o custo do sistema, já que quase metade de cada doação é consumida por presente, frete, portal e administração antes de virar dinheiro público.
É legal? Parece bom demais.
É um programa oficial, criado por lei em 2008 e administrado pelo Ministério de Assuntos Internos e Comunicações. Em 2025 foram ¥1,33 trilhão em doações e 11,5 milhões de pessoas com dedução aplicada. Não é brecha nem esquema — é política pública.
Preciso saber japonês para entender o sistema?
Para entender, não. Para doar, os sites são em japonês, mas funcionam como qualquer loja online e o tradutor do navegador dá conta da maior parte. Os pontos onde o japonês importa de verdade são o formulário do One-Stop e o campo do endereço.
Qual é a diferença entre esta página e o guia completo?
Esta página explica o que o sistema é e como ele funciona por dentro. O guia completo é operacional: calculadora do seu limite, comparação de plataformas, passo a passo do One-Stop e as perguntas práticas de quem já decidiu doar.

Fontes oficiais e atualização

Fontes oficiais

Ministério de Assuntos Internos e Comunicações (総務省) — Levantamento anual sobre o Furusato Nozei, edição de 31 de julho de 2026 (PDF) — valores arrecadados por ano desde 2008, composição dos custos, número de doações, dedução no imposto residencial, ranking de municípios e a nova regra de parcela mínima aproveitável.
総務省 — Portal oficial do Furusato Nozei — funcionamento do sistema, teto do presente e regras de designação dos municípios.
総務省 — Grupo de estudo do Furusato Nozei (junho a outubro de 2007) — atas e relatório que originaram o sistema.

Os números deste texto são nacionais e servem para entender a escala do sistema, não para calcular o seu caso. O seu limite pessoal depende da sua renda e das suas deduções — use a calculadora para isso.

Revisão e atualização

Última atualização: 13 de agosto de 2026, com os dados do levantamento oficial publicado em 31 de julho de 2026. Esta página é reaberta sempre que o Ministério publica um novo levantamento ou muda uma regra do sistema.

Escrito por Lian Alves, criadora do Finanças no Japão e do Calcula Japão. Conheça a metodologia e a experiência por trás deste conteúdo →